O Rito

O rito armênio tem suas raízes no cristianismo antigo e se espalhou pelo mundo na grande diáspora desse povo a partir da perseguição turca no século passado. A presença armênia em São Paulo desde os anos vinte trouxe para a cidade as igrejas ortodoxa, católica e evangélica. A rápida reflexão focada, sobretudo, nos aspectos rituais da tradição é feita por um pároco brasileiro incardinado no Exarcado Armênio.

O rito armênio tem suas raízes no cristianismo antigo e se espalhou pelo mundo na grande diáspora desse povo a partir da perseguição turca no século passado. A presença armênia em São Paulo desde os anos vinte trouxe para a cidade as igrejas ortodoxa, católica e evangélica. A rápida reflexão focada, sobretudo, nos aspectos rituais da tradição é feita por um pároco brasileiro incardinado no Exarcado Armênio.

Palavras chave

Armênia, Cultura, Diáspora, Evangelização, Rito armênio

Abstract

The Armenian rite has its roots in ancient Christianity and spread around the world in the great diaspora of this people from the Turkish persecution in the last century. The Armenian presence in São Paulo since the 1920s brought to the city Orthodox, Catholic and Evangelical churches. A quick reflection focused mainly on the ritual aspects of the tradition is made by a Brazilian parish priest incardinated in the Armenian Exarchate.

Keywords

Armenia, Culture, Diaspora, Evangelization, Armenian Rite

            Há catorze anos, presto assistência religiosa aos armênios católicos. Não estudei o rito armênio, apenas me aproximei desta comunidade para servi-la ministerialmente. Sob o ponto de vista pastoral, partilho a tradição espiritual que continuamente venho observando, celebrando e nutrindo minha fé, a partir de dentro da comunidade, como padre incardinado no Exarcado Armênio com a função de pároco. Os dados e números apresentados neste relato, servem como aproximação para análise, carecendo de ulterior comprovação, do ponto de vista cientifico. A reflexão focará de modo particular os aspectos rituais dessa antiga tradição cristã e católica nas suas características principais.

  1. Considerações preliminares

Preliminarmente, considero fundamental estabelecer a relação entre cultura, evangelização e rito. Numa cultura cristã bimilenar, essas três dimensões se fundiram. O anúncio do Evangelho, a formação da Igreja e a mentalidade cristã forjaram a identidade do povo armênio.

No século IV, o alfabeto armênio foi codificado por São Mesrob Machdots e pelo Catolicós São Sahag pela necessidade de traduzir a Bíblia para a língua armênia e redigir os livros litúrgicos para fortalecer a identidade cultural do povo. O calendário dos santos é expressão viva da história e daqueles que deram a vida pela pátria e pela fé. A melodia dos hinos e cânticos reflete a sensibilidade oriental. Desta forma, o rito litúrgico tornou-se expressão da identidade daquele povo, a forma mais acabada da cultura armênia.

Ao longo de sua história, o povo armênio travou muitas guerras para garantir a soberania e o território de sua nação. A própria localização geográfica do país presta-se a formar uma passagem para o oriente. O acontecimento mais trágico que abalou este país, aconteceu recentemente em 1915, com o primeiro genocídio do século XX, perpetrado pelo império Otomano, sua vizinha Turquia, que martirizou um milhão e meio de armênios. Toda a população armênia passou a ser tratada como inimiga dentro do Império em uma onda de limpeza étnica. O esquema de deportação dos armênios foi sistematicamente planejado com muito tempo de antecedência conforme o registro dos historiadores.

Em 24 de abril de 1915, com a prisão dos intelectuais e personalidades armênias de Istambul, foi o início do crime premeditado, que se estenderia por mais de dois anos. Por conta disso, atualmente a Armênia conta com cerca de três e meio milhões de habitantes e uma diáspora por todo o mundo com cerca de sete milhões de armênios já em sua quarta geração.

Por isso, a legítima expressão do rito armênio transplantada com o povo para outros lugares do mundo requer uma adaptação cultural dinâmica. Completado os cem anos da diáspora armênia no Brasil, há que reavaliar a expressão da fé e dos pilares da identidade armênia, pois nos encontramos em um outro contexto cultural, no qual a fé dialoga e reconsidera suas expressões. Alguns elementos dizem alto: a maioria dos casamentos se dá entre uma parte brasileira e outra armênia; estamos na quarta geração que não fala e nem escreve a língua armênia; não se tem a perspectiva de novas migrações de armênios para cá; a secularização avassaladora não favorece o cultivo, a valorização e a transmissão da fé para as gerações jovens. Perde-se de vista a união fé cristã e cultura.

Este é o atual desafio que enfrentamos: considerar as possibilidades de sustentação do rito armênio não como uma estrutura rígida e fixa em todas as suas expressões, mas cultivar a identidade ritual armênia sendo fiel à transmissão dinâmica do Evangelho em um novo contexto cultural.

  1. Origens

O país se situa na região montanhosa da Ásia Menor, ao sul do Cáucaso. A extensão de suas terras pode ser comparada com o estado de Sergipe, embora em outras épocas suas fronteiras se estenderam por vastos territórios. Faz fronteira com a Turquia, o Azerbaijão e a Geórgia. A história milenar deste povo, especialmente depois da adoção do cristianismo no século IV, tornou-se sinônimo de resistência para preservar sua identidade e liberdade de fé e de território.

A evangelização da Armênia deita raízes na pregação dos apóstolos Tadeu e Bartolomeu martirizados nestas terras. O evento mais importante na história da nação armênia aconteceu em 301. Tirídates III (287-330), rei da Armênia, e São Gregório, o Iluminador, tiveram papéis decisivos na adoção do cristianismo.[1] A saga destes acontecimentos originou a identidade cristã dos armênios.

Anak, pai de Gregório assassinou o rei Khosrov II pai de Tirídates III. Gregório, ainda criança fugiu e foi educado na Capadócia de cultura grega. Tirídates, igualmente jovem, por segurança foi conduzido e educado em Roma. Em 287, Tirídates, acompanhado de legiões romanas, chegou à Armênia a fim de assumir o trono de seu pai. Gregório tornara-se cristão e voltou à Armênia para reparar os atos de seu pai, por isso empregara-se na corte.

Quando convidado a oferecer em honra a deusa Anahid, recusou-se e aí foi descoberto seu parentesco com o assassino do pai do rei. Gregório, então, foi encerrado num poço, local destinado às pessoas condenadas à morte. Ali passou 14 anos. Durante este período, o rei Tirídates foi acometido de uma grave doença que o transtornava. A irmã do rei, a princesa Khosrovidukht, por várias vezes teve a visão de que aquele homem aprisionado no poço poderia salvar seu irmão.

Gregório que sobrevivera milagrosamente, curou o rei e o batizou. Tirídates proclamou o cristianismo como religião oficial da Armênia que se tornou a primeira nação do mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, em 301. Posteriormente, Gregório foi ordenado bispo em Cesareia da Capadócia e colocou as bases da Igreja armênia. É considerado o apóstolo evangelizador da Armênia ao lado de Tadeu e de Bartolomeu.

A liturgia armênia tem sua origem na liturgia de Antioquia na Síria, foi organizada durante o século V. A existência de uma cisão na Igreja Armênia é um fato que teve sua origem no Sínodo de Dvin, em 556, decorrente de uma equivocada interpretação em torno do decreto cristológico do Concílio de Calcedônia, no ano 451.

A partir de então, organizou-se como Igreja autônoma de caráter nacional, a chamada Igreja Apostólica Armênia. Em 1742, numerosas comunidades se uniram a Roma e hoje formam o Patriarcado da Cilícia dos Armênios, com sede em Beirute, Líbano. Aproximadamente, calcula-se que hoje apenas a quarta parte dos armênios professam a fé católica.

  1. Características do rito armênio

A tradição litúrgica armênia se desenvolveu nos mosteiros e a vida do povo é concebida como tradicional ou naturalmente cristã. A língua litúrgica ainda é o armênio clássico, chamado “krapar”, que não é mais falado. Outro elemento original é sua hinografia, composta entre os séculos X e XII.

Por motivos ecumênicos, isto é, para não se distanciar da Igreja Apostólica e também por limitações próprias, a Igreja católica armênia não renovou a sua liturgia. Tal reforma, prevista pelo Concílio Vaticano II, tem a finalidade de promover uma liturgia mais fiel às suas fontes e também, eliminar as repetições, dar prioridade à participação ativa, consciente e frutuosa dos fiéis e, valorizar as Sagradas Escrituras com uma ampla leitura dos livros sagrados. Por isso, de maneira geral, o rito armênio não cumpriu esta tarefa.

Ano litúrgico

Distribui-se o ano em cinco grandes festas precedidas por uma semana de jejum e por um dia de vigília. Há os ciclos da Epifania e da Páscoa que contemplam o tempo de preparação e prolongamento da festa. Seguem as festas da Transfiguração do Senhor, Assunção da Virgem e da Santa Cruz. Diretamente relacionadas à Páscoa, as quatro festas sublinham aspectos próprios do grande mistério da redenção. O dia seguinte à cada grande festa é tido como Dia de Finados. Tais festas contemplam semanas de prolongamento que variam em sua duração de acordo com o deslocamento da data da Páscoa.

As quartas e sextas-feiras são consideradas dias penitenciais. No Domingo só é permitido celebrar festa do Senhor, ou seja, festas de Jesus e festas de sua Mãe santíssima. A comemoração dos santos ocorre durante às segundas, terças, quintas-feiras e sábados, sem um dia fixo no ano porque não segue o calendário solar do ano civil. A comemoração acontece em dias e meses diferentes, segundo a data da Páscoa conforme o calendário lunar. Assim, é possível ligar a festa de um santo a uma certa semana determinada, mas nunca a um mês e dia do ano; por exemplo, a festa de São Vartan é celebrada sempre na quinta-feira da semana que antecede a Quarta-feira de Cinzas.

            A maioria dos Santos do calendário armênio é estrangeira; pertencem às outras Igrejas, o que significa que, desde o início a Igreja foi católica, isto é, universal.

            São poucas as festas fixas do Ano Litúrgico armênio: duas do Senhor 6 de janeiro: Epifania; e 25 de dezembro: Natal. E cinco de Nossa Senhora: 14 de fevereiro: Purificação de Maria; 7 de abril: Anunciação; 8 de setembro: Nascimento de Maria; 21 de novembro: Apresentação de Maria no templo; 9 de dezembro: Imaculada Conceição.

Iniciação cristã

O ritual é o de adultos adaptado à criança. Batismo e Crisma são celebrados conjuntamente apenas para uma criança.[2] Os diálogos são dirigidos à criança e, naturalmente respondidos pelos pais e padrinhos.

            Fora da igreja, conserva-se o rito de renúncia ao mal voltado para o oeste, lugar onde o sol se põe e de professar a fé direcionando-se para o lado leste. São proclamadas duas fórmulas de bênção d’água e no final delas se mistura o míron. O batismo é realizado com a criança desnuda dentro da fonte, derramando água na cabeça e proferindo a fórmula: “O servo N. é batizado por minhas mãos, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.

            Em seguida, inicia-se a confirmação com a imposição de mãos acompanhada de uma bela oração; depois crisma-se com a fórmula: “N. o óleo derramado sobre ti é marca dos dons divinos e celestiais, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

            É importante a recuperação do termo “marca”, ou “selo” ou “caráter” para ressaltar a dimensão indelével do sacramento. De forma muito interessante, seguem as unções com o míron nos sentidos, nas costas, coração, mãos e pés para que todo o ser do crismado seja configurado em Cristo para viver o dom da vida nova ao longo da existência.

            Batizado e crismado, resta aprender o caminho da doação e da oferta da própria vida em comunhão com o sacrifício de Jesus como resposta assertiva às promessas batismais. Então, o sacerdote toma a criança nos braços e a apresenta no altar, dizendo: “O servo de Jesus Cristo N., que se despojou da iniquidade e se revestiu da luz do conhecimento de Deus, vem prostrar-se voluntariamente diante do santo Altar, em nome do Pai e do Filho e Espírito Santo.”

            Matrimônio

            Há de se destacar o vivo sentido de família existente entre os armênios. Em primeiro lugar, vive-se para a família e é fato comum acompanhar casais idosos que testemunham a solidez da aliança matrimonial vivida com amor, respeito e entrega. Frequentemente, ocorre matrimônios entre as famílias da colônia, de tal forma, que sempre há algum grau de parentesco entre todos.

            Na celebração deste sacramento,[3] os noivos manifestam por duas vezes o consentimento. Reza-se a bênção para a coroação dos noivos rogando a Deus que os coroe com a sua glória conservando-os no amor e na união durante toda a vida, e principalmente, pede-se para abençoar a sua descendência. Há o momento dos noivos beberem o mesmo cálice com vinho, após a seguinte bênção: “Senhor, nosso Deus, vós glorificastes as bodas de Caná da Galileia e abençoastes o cálice no Cenáculo. Abençoai, Senhor, com vossa Cruz este cálice, como símbolo da união e da saúde do corpo e da alma…”

            Surp Badarak (Santo Sacrifício)[4]

O espaço litúrgico contempla um nível acima da nave chamado de Tass (lição) onde celebra-se a Palavra e os sacramentos. Num nível mais alto, acha-se o Pem (parte elevada) circundado por uma cortina, aí situa-se o altar e se pisa com sapatos litúrgicos. O presidente celebra diante do altar voltado para o lado leste com um retábulo com o ícone da Virgem.

O bispo se paramenta com a mitra, omofórion, panáguia (toda santa, medalhão com o ícone da Virgem), báculo, capa e cruz de mão. O pároco se reveste com coroa, cruz peitoral, bastão (báculo menor), capa e cruz de mão.

Dá-se o diálogo melodioso entre o presidente, o diácono (dirigente) e o coro (povo). Cada um, canta suas partes próprias. A experiência de celebrar de costas para a assembleia possibilita o presidente da ação litúrgica se concentrar mais no mistério e dispender menos energia. O rito não contempla momentos específicos para monições ou exortações, o que pastoralmente, mormente se faz necessário.

Os ritos iniciais contemplam orações penitenciais do presidente, subida ao Pem e fechamento da cortina, preparação das oferendas no altar lateral, abertura da cortina, incensação, canto do triságion (3 vezes santo) dirigido a Jesus Cristo com a belíssima procissão com o evangeliário para os fiéis o beijarem e o saudarem com a testa. Conclui-se com a primeira ladainha. Sempre com a resposta: “Der voghormiá”, Senhor tende piedade. Por várias vezes, durante a celebração, pede-se a reverência com a inclinação do corpo e em seguida quem preside, volta-se para a assembleia e a abençoa: “a paz esteja convosco” (Khaghaghutiún amenetsún).

A liturgia da Palavra consta de antífonas, curiosamente de uma leitura sempre do Novo Testamento (exceto o livro do Apocalipse) e da proclamação do Evangelho. Segue a profissão de fé nicena, as invocações da segunda ladainha e as preces do presidente. Ainda se conserva o costume de despedir os catecúmenos no final da liturgia da Palavra.

A liturgia eucarística

            A oração eucarística é invariável com algumas pequenas partes próprias de acordo com o mistério comemorado. Após a apresentação das ofertas, tem lugar o rito da paz, por sinal bastante completo como anúncio de conversão, antes de iniciar a oração eucarística.

Os acólitos beijam o altar e as mãos do celebrante postas sobre o altar e levam a paz para os membros da assembleia, cumprimentando-os e, depois as pessoas passam a se cumprimentar. Do altar que é Cristo e do sacerdote que age na pessoa dele origina-se a paz que é difundida na Igreja, a fim de que todos entrem em comunhão com o Senhor e formem o seu corpo, a Igreja, sem divisão. “Foi dada a ordem do ósculo santo. A Igreja se fez um só corpo e o beijo foi dado como laço desta unidade”.

No início da oração eucarística, destaca-se a beleza do melodioso e lírico canto do Surp (Santo, Santo, Santo). Após a narrativa da instituição da eucaristia, tem lugar a epiclese. A oração eucarística recorda a Santa Mãe de Deus; João Batista; Estêvão, o protomártir e Gregório, o Iluminador. O rito de comunhão contempla a exaltação da eucaristia, a qual é elevada pelo presidente voltado para o retábulo e canta às três pessoas divinas e depois eleva o cálice. Em seguida, voltado para o povo, o presidente apresenta a eucaristia e o cálice e canta convidando o povo à comunhão. Os fiéis sempre comungam sob as duas espécies.

Como acenamos acima, a liturgia se originou nos mosteiros, então é possível compreender a existência de celebrações próprias com proclamação da Palavra e sinais específicos estreitamente ligadas ao dia litúrgico e à eucaristia: bênção da água na festa da Epifania, abertura das portas e bênção dos quatro pontos cardeais no Domingo de Ramos, lava-pés na Quinta-feira santa e Vigília Pascal.

 

  1. O rito armênio na diáspora brasileira

As primeiras famílias de armênios aqui chegaram em 1920 por ocasião da perseguição do governo turco, inicialmente se estabeleceram no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nessa época, em São Paulo, a maioria dos armênios passou a morar perto das ruas Santo André e 25 de Março, local onde muitas fábricas de sapatos foram se instalando. As imediações dos bairros da Luz e do Bom Retiro passaram a congregar a maioria dos armênios. Três igrejas armênias foram construídas bem próximas nesta região: a Apostólica, que abriga quase ¾ dos armênios, a católica, denominada S. Gregório Iluminador e uma evangélica.

Como muitos imigrantes chegavam com quase nada no bolso, só com o sonho e a esperança de construir uma nova vida em terra estrangeira, os armênios dividiam casas. Em uma residência de um só banheiro moravam umas cinco famílias. Cada uma delas tinha seu quarto e um fogãozinho na cozinha.

Depois das primeiras gerações trabalharem como mascates ou sapateiros, muitos se firmaram como grandes comerciantes e, na medida em que foram obtendo sucesso na nova terra, se deslocaram para outros bairros bem mais distantes dos lugares iniciais de fixação. Hoje em dia, 2021, a coletividade reúne cerca de 30 mil pessoas no país. Estima-se que 25 mil armênios residam na cidade de S. Paulo, que tem até uma estação do metrô com seu nome.

A Comunidade Armênia Católica de S. Paulo era composta, em sua maioria, de pessoas provenientes de Marash na Turquia[5], região fronteiriça com a Armênia. Embora abalada com a catástrofe que se abatera naquela cidade, esta gente, profundamente cristã, sentiu a necessidade da presença de um sacerdote armênio católico em S. Paulo, a fim de lhe garantir as suas práticas religiosas. Em 1935, teve início a Missão Armênia Católica com a chegada do primeiro padre armênio: Vicente Davidian. Aos 13/02/1969, D. Jaime Câmara, cardeal arcebispo de São Paulo, criou a Paróquia Armênia Católica para os fiéis do rito armênio no Brasil. Finalmente em 03/07/1981 foi criado o Exarcado Armênio Católico e também nomeado seu primeiro bispo com jurisdição para toda a América Latina: D. Vartan Waldir Boghossian. Atualmente, o Exarcado Armênio, corresponde à Prelazia ou à diocese em formação, está sediado em S. Paulo e tem o relevante papel, entre outros, de garantir a autonomia da celebração do rito com ordinário próprio.

Há que destacar o fato da Paróquia católica de rito armênio ter jurisdição em todo o território nacional sobre todo fiel o(a) armênio(a) residente em qualquer parte do país. Como contempla o Código de Direito Canônico para as Igrejas Orientais.

Retomando a proposta inicial de viabilizar a celebração do rito armênio acompanhando os desafios da evangelização na diáspora brasileira, há que reconsiderar as práticas cultuais valorizando os elementos essenciais constituintes da identidade armênia e por outro lado, os limites que a realidade impõe.

Os fiéis espalhados por toda a grande cidade têm a possibilidade de receber válida e licitamente a assistência religiosa na paróquia de rito latino próxima da própria casa; este fato desestimula a frequência na sede da comunidade paroquial. Esta acaba sendo um lugar de referência para os grandes momentos: batizados, exéquias, algum matrimônio e encontros comunitários específicos.

Vencer a distância, torna-se um desafio para poder completar a iniciação à vida cristã com a catequese catecumenal culminando com a primeira comunhão eucarística. A participação no processo catecumenal torna-se muito fragmentada.

Ultimamente, aceleradas pela pandemia, as transmissões on line trouxeram novo alento à comunidade, pois se pode comprovar que mesmo à distância, tece-se uma rede de pessoas que se comunicam, criam laços, fortalecem a fé e se reconhecem como comunidade. Neste modelo, as distâncias se encurtam e as pessoas de várias partes da cidade e do país se conectam.

Pastoralmente, pelo fato das novas gerações não se comunicarem em língua armênia, e acrescentar o fato da celebração eucarística ser transmitida on line para os paroquianos espalhados em várias regiões, torna-se necessário viabilizar tal transmissão encurtando sua duração e tornando-a compreensível. Por isto, optamos por uma celebração dominical dialogada com as partes do presidente e do diácono (dirigente) em português e conservando apenas as partes do coro (assembleia) cantadas em armênio.

É praticamente inviável, comemorar um dia de finados após cada uma das cinco grandes festas. Ou mesmo, cada vez torna-se mais difícil cumprir todas as tradições em torno das exéquias, como realizar a refeição na casa do falecido, logo após o féretro.[6]

Há que resgatar a memória dos santos que formaram a identidade cristã armênia, torná-la sempre mais vivas e conhecida das gerações atuais.

Concluindo, a comunidade católica armênia é um lugar de identidade armênia. A fé celebrada nos ritos, mesmo traduzidos ou parcialmente cantados em armênio, cala na alma do fiel que se reconhece naquelas tradições e quer manter algum vínculo. Assim, a casa da igreja, os momentos de convivência, a memória anual do genocídio e as relações de amizade acendem a luz do evangelho e fazem vislumbrar o Reino, ainda que como o fermento, mas capaz de fortalecer a comunidade e torná-la resistente. Às novas gerações caberão acolher a tradição do rito e manter a sua alma: a luz do Evangelho.

Dados do autor: P. Antonio Francisco Lelo, é pároco dos armênios do Brasil, doutor em liturgia pelo Instituto Superior de Liturgia da Catalunha (Espanha), é Licenciado em Pedagogia e Filosofia, é editor-assistente na área de Liturgia e Catequese na Paulinas Editora.

[1] Cf. AGATHANGELOS, History of the Armenians. Albany: State University of New York Press, 1976.

[2] Exarcado Apostólico Armênio para a América Latina. Batismo Crisma. Editado por D. Vartan Waldir Boghossian.

[3] Exarcado Apostólico Armênio para a América Latina. Sacramento do Matrimônio. Editado por D. Vartan Waldir Boghossian.

[4] Exarcado Apostólico Armênio para a América Latina. Santa Missa Armênia Cantada. Editado por D. Vartan Waldir Boghossian.

[5] A região de Marash era conhecida como uma ponte entre o Cáucaso e o Mediterrâneo, e em 1973 foi rebatizada de Kahramanmaras, já como uma cidade da Turquia.

[6] Esta modalidade pode ser vista nas transmissões pela plataforma do youtube: Paróquia Armênia Católica.

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